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Reaprendi a andar em 2012. Fui convocada para a Seleção Brasileira em 2019.

Atleta

Reaprendi a andar em 2012.
Fui convocada para a Seleção Brasileira em 2019.

“Dedicação, perseverança e muito desejo de atingir meus objetivos, muito desejo de vitória. Vitória na vida, não vitória como piloto. À todos eu digo que: seja quem você for, qualquer posição que você tenha na vida, tenha sempre como meta ter muita força e muita determinação. Sempre faça tudo com muito amor e com muita fé em Deus, porque um dia você chega lá, de alguma maneira você chega lá.” 


Esse texto é de um video do Ayrton Senna. (Se você nunca assistiu, vale a pena). Atleta, visto por milhões, era conhecido por ser inteligente, estrategista e muito dedicado. Uma das coisas que mais o movia ele era o amor. O amor que um atleta tem pelo esporte e pelo que ele faz, pode trazer resultados extraordinários. 


Como atleta, eu demorei muito para entender essa paixão pelo esporte. Entre meus 5 a 10 anos, meus hobbies eram aulas de pintura em tela e jogar futebol.  Dos 10 aos 15 eram jogar vôlei e jogar futebol. Dos 15 aos 20, eram olimpíadas do colégio e jogar futebol. Dos 20 aos 25: jogar futebol e agora futebol americano. Estava meio óbvio o que eu amava fazer?


Eu fui a criança que não deixava a mãe colocar saias e tutus para ir em uma festinha, porque eu queria poder jogar bola no aniversário sem ter que mostrar minha calcinha para ninguém. Eu fui a criança que, aos 12 anos, teve que brigar com as consagradas e com os professores do colégio católico que eu estudava, porque menina não podia jogar bola. Naquela época, que me tiravam da quadra e pediam para eu sentar porque futebol era esporte para homens, eu entrava na quadra de novo e jogava até o próximo professor aparecer e pedir para eu me retirar. Eu queria fazer teimosia? Não! Porque na verdade, como eu não entendia o porquê, para mim também era errado uma menina jogar bola. Mas era algo que eu amava e que eu não ia deixar de fazer.


Em 2012, foi o ano de reviravoltas: foi meu primeiro ano de faculdade, foi o ano que eu iniciei no meu primeiro emprego e também foi ano que eu sofri um acidente de carro que mudaria tudo dali em diante. Minha família e eu tínhamos o costume de ir para o Mato Grosso do Sul, na fazenda do meu avô, uma vez por ano. No dia 8 de Julho de 2012, um domingo à tarde, próximo a Ponta Grossa, um carro colidiu com o da minha família. Meu pai dirigia, com minha mãe de copiloto e minha irmã e eu no banco de trás (as duas sem cinto). Como ia bater de frente, no último instante, meu pai tirou nosso carro para direita e o outro carro pegou na minha porta. O carro capotou algumas vezes e parou no meio do mato. 


É muito engraçado como nossa cabeça funciona e como nosso cérebro escolhe o que recordar e o que apagar. Eu me recordo do meu pai pedindo para eu sair do carro, assim como lembro de algumas vozes ao fundo comentando que eu precisava sair também  pois havia gasolina vazando. Meu pai conversava comigo e ,nesse momento, eu não lembro de sentir dor, mas lembro de sentir muita sede, calor e pedia para tirarem foto de mim dentro do carro. Nada mais passava pela minha cabeça, nem me questionava na hora o porquê de não conseguir usar as minha pernas para sair do carro.


O que aconteceu foi que eu tive uma fratura no meu fêmur direito bem próximo ao joelho; uma fratura no meu quadril no lado esquerdo (na pelve) e uma fratura no final da coluna (sacro). Dessa forma, eu não conseguia ter apoio em nenhuma das duas pernas. Algum tempo depois eu lembro de colocarem um protetor cervical em mim e também alguém me pedindo para que eu cobrisse o meu rosto porque iriam cerrar a porta para me tirar de dentro. Quando minha mãe conta a história, diz que eu gritei muito na hora que me tiraram de dentro do carro, mas essa parte eu não lembro.


A dor começou quando chegamos ao hospital de Ponta Grossa. Eu lembro de muitas pessoas mexendo em mim: cortavam minha calça e eu sentia uma dor que eu não conseguia respirar. O que acontecia é que não sabiam das fraturas do meu quadril, apenas as da minha perna. Eu ainda não tive filhos, contudo já tive crise renal. Dizem que a dor do parto e de cólica renal são umas das piores dores que existem. Eu confesso que posso comparar tranquilamente a dor da fratura do quadril com a dor de uma crise renal.

Depois de passar a noite em Ponta Grossa, fomos de ambulância até Curitiba. Lá minha cirurgia da perna já estava agendada para quarta-feira. Foram 9 pinos e uma placa de 15cm mais ou menos. Para as fraturas da pelve e sacro a indicação era apenas repouso. Assim, passei uma semana no hospital e depois fui para casa. 

Nesse momento de quarentena que estamos vivendo, umas das nossas maiores realizações é a adaptação. Em um primeiro momento temos que ser flexíveis, aceitar a situação e lembrar que existe uma solução para tudo. Em Julho de 2012, para mim, tive que me adaptar a não poder sentar. Além de perder a independência e privacidade, perdi grande parte da musculatura do meu corpo. No final de Agosto, pude ir para a cadeira de rodas. Para andar pela casa, subir e descer escadas, andava de bunda mesmo, usando os braços para me levantar, porque não queria depender dos outros. Por indicação do meu médico na época, minha mãe comprou um andador. Na fisioterapia, lembro que a primeira vez que eu fiquei em pé, não aguentei 10s. É estranha a ideia de você ter que indicar para sua perna ir para frente para caminhar. Mas eu recordo muita a sensação de não saber como andar. Em outubro, comecei a andar de muletas.


Um ano após o acidente, em 2013, meu médico liberou e voltei a jogar futebol eventualmente. Com a placa ainda na minha perna, eu não conseguia chutar com a perna direita, logo aprendi a chutar com a esquerda também. Apesar da dor, a sensação de poder correr e jogar de novo faziam valer a pena. Lembro também que em 2013, por conta da falta de exercícios e de vários remédios que eu tinha que tomar, engordei e cheguei a pesar 70kg. Em 2014, queria voltar a treinar 100% e perder peso. Com metas e estratégias pessoais, perdi 20kg. Em Julho de 2014, cheguei a pesar 50kg mas também estV muito fraca por ter perdido muita massa muscular. Em Fevereiro de 2015 eu tirei a placa e os pinos da perna e os guardo até hoje.


Em Janeiro de 2017, conheci o futebol americano por meio de algumas amigas. Me apaixonei pelo esporte e comecei me envolver cada vez mais. Em Julho do mesmo ano, tive uma lesão no dedinho do pé. Foram dois meses sem poder usar chuteiras ou qualquer tipo de sapato. Como não queria deixar de treinar, a primeira solução que encontrei foi treinar de meia mesmo. Como em campo eu não poderia usar essa mesma estratégia, cortei um pedaço da chuteira e coloquei uma tampa alta com silver tape. Assim o dedinho teria espaço e a dor seria menor. 

A chuteira sacrificada.

Em novembro, recebi um convite para jogar um jogo amistoso de Flag Football. Fui convidada pela equipe do Big Riders do Rio de Janeiro, junto da minha amiga, irmã, Ester Alencar. Fomos até Caxias do Sul para jogar uma partida de um esporte que, à época, eu nunca havia ouvido falar. Em janeiro de 2018, recebi o convite da equipe para jogar a temporada com elas. Na época, eu lembro de me sentir muito desafiada, visto que era um esporte que eu não tinha tanto conhecimento. Além disso, teria que arrecadar dinheiro para, periodicamente, ir para uma cidade que eu não conhecia e ficar na casa de pessoas que eu também não conhecia. O que me fez encarar? O fato de entrar em campo e de abraçar essa oportunidade. Hoje, sou extremamente grata pelas experiências que eu vivi e pelas amizades que eu fiz e que carrego no meu coração até hoje. Ainda, foram nesses jogos que eu tive o primeiro contato com atletas experientes do esporte e algumas que já eram da seleção. 


Vale ressaltar que, além do estudo aprofundado do Flag Football, no mesmo ano eu assumiria uma posição importante do meu time, o Curitiba Silverhawks. Com isso coloquei a missão e o prazo para mim mesma de aprender as mecânicas de Quarterback. Para quem não sabe, respeitamos uma mecânica de movimento para evitar lesões por conta do movimento repetitivo do lançamento da bola. Logo, na época, eu fazia um curso de PNL (Programação Neuro Linguística) em que é abordado sobre a Hierarquia da Competência. É dito que existem fases de aprendizado, entre eles: Inconsciente Incompetente, Consciente Incompetente, Consciente Competente, Inconsciente Competente. Para você entender melhor, eu comparo dessa forma:

Inconsciente Incompetente = Eu nem sabia que existia uma mecânica de Quarterback.
Consciente Incompetente =  Eu sei que existe a mecânica de Quarterback mas não sei como funciona.
Consciente Competente = Eu sei sobre a mecânica mas ainda tenho que pensar sobre cada passo.
Inconsciente Competente =  Eu sei a mecânica e é automático. Tenho a memória muscular e não preciso pensar para fazer. (Maestria)

Depois de muito treino, estudo, muitas dores e pequenas lesões gosto de compartilhar como eu aprendi a mecânica e como a atenção aos detalhes te diferenciam como atleta. Para buscar evolução, enviava vídeos meus para coaches de fora do país e contava com ajuda de amigos atletas daqui também.

No mesmo ano, eu assisti pela primeira vez um jogo da Seleção Brasileira de Flag. Lembro que na época conhecia apenas a atleta Kely Araujo. É uma atleta de Flag Football que eu tenho como referência no esporte. Jogamos juntas pelo Big Riders e eu gostava muito como ela exigia de mim resultados dentro de campo mas também como ela me ensinava e me levantava quando precisava. Esse dia, foi o dia que eu afirmei para mim mesma que no próximo mundial eu vestiria a camiseta da Seleção Brasileira. Com isso, comecei a pesquisar como chegar nesse objetivo.


Em 2019, foi divulgado que a Comissão Técnica faria 3 camps: um para quarterbacks, outro para recebedoras e outro para defensoras. Como o camp seria em São Paulo, por questões financeiras e de logística, escolhi ir em apenas um, no de Recebedoras. Com a divulgação dos primeiros camps educativos, o primeiro passo foi entender o que buscavam nas atletas e o que seria um diferencial. Eu tenho 1,63cm de altura. Logo não vou ser a mais alta e não vou ser a atleta que vai pular mais alto. Sou rápida, mas existem atletas mais rápidas. Tenho um bom catch, boas leituras e sou inteligente dentro de campo. Contudo, para quem é atleta, sabe que a experiência de jogo conta muito e muitas das outras atletas possuem muito mais tempo em campo do que eu. Logo foquei em dois pontos que eu sei que seriam meu diferencial: adaptação e determinação.


Meu perfil de atleta é ser estratégica e com um poder muito grande de adaptação às situações. Como aplicar isso no Flag Football? Aqui vale o conhecimento sobre todas as posições, conhecimento de conceitos e playbooks ofensivos e defensivos e além da parte técnica. Isso somado ao amor de realizar as tarefas e de me exigir a cada drill ou a cada jogada, fizeram a diferença. Vale ressaltar que nesse camp, no domingo, no início da manhã eu não me sentia bem. Havia ido ao banheiro e lembro de ter achado estranho a cor da minha urina. Não deu outra!  No  dia seguinte, na segunda-feira mesmo, tive que ir para o hospital porque estava com uma pedra presa no canal e que causava cólicas. 


Depois dos exames em São Paulo, tive que voltar logo para Curitiba para passar por uma cirurgia e colocar um Duplo J, que se trata de um cateter que vai do rim à bexiga. Após a recuperação do rim, abril de 2019, acredito que foi umas das épocas mais difíceis para mim. Foi uma época que eu fiquei sensível a barulhos, não tinha vontade de comer, não tinha vontade de sair do quarto e nem de treinar. Lembro de um treino do Silverhawks que eu tive um episódio que de repente fiquei com muito medo, tive que tirar meu helmet correndo, comecei a chorar e queria sair de lá. Episódios assim foram ocorrendo com mais frequência. Até que um dia, minha amiga, Evelise de Paula, me buscou em casa e me levou em um médico psiquiatra. Fui diagnosticada com depressão, episódios de pânico e crise de ansiedade. 


Me lembro muito bem do médico receitando remédios para eu tomar. Quando eu vi aquela receita, eu tive o insight que no fundo, eu sabia que tudo isso que estava acontecendo comigo era fruto de onde eu colocava meu foco. Ali, eu focava nas dores, no medo de lesões, nos problemas familiares, nos problemas financeiros. Logo, naquele momento eu colocava de lado as conquistas, as vitórias e, acima de tudo, minha essência. Por mais dolorido que fosse, como solução eu fiz o seguinte: Criei metas para cada segmento da minha vida e coloquei prazo para realizar cada uma delas. Criei um quadro do meu estado atual, o que eu faria para mudar e qual o resultado que eu queria atingir. Quando eu via que eu ia ter uma crise de pânico, eu colocava um fone com a música que mais me levantava e que mais fazia eu me sentir mais forte. Por mais que às vezes não pareça, apesar do cansaço, da tristeza e da dor, tudo na vida tem solução. E o amor que as pessoas próximas a você sentem e o que você sente por você mesmo te guiam. 

O quadro que eu utilizei como estratégia.


Em Junho de 2019, participei da Seletiva da Seleção Brasileira. Foi um final de semana de treino intenso em Floripa, em que eu deixei os problemas e os medos em Curitiba, porque sabia que ali seria a primeira etapa para conquistar um sonho. No dia 29 de Setembro de 2019, comecei a receber mensagens que meu nome estava na lista das convocadas para o primeiro treino oficial.  Os treinos de Janeiro e Fevereiro  foram seletivos, ou seja, a cada treino a comissão técnica iria cortar um número X de atletas. Assim, busquei em focar na minha estratégia anterior que era ser versátil (treinei em todas as posições do flag) e procurava ser interessada, questionadora e desafiada o tempo todo. Assim, no dia 13 de Fevereiro de 2020, li o meu nome na lista entre as 20 melhores atletas do país. 


Apesar das bolhas no pé, dores no quadril e joelho, fratura na mão (sim, quebrei a mão em um dos camps), todo drill eu mesma me desafiava a fazer melhor. Porque se a gente parar para pensar: Quanto tempo dura a emoção/felicidade de uma conquista? Quanto tempo durou a minha sensação da conquista da vaga? Quanto tempo dura a felicidade da vitória em si, o fato de você levantar um troféu ou comemorar um gol? Dura entre 2 e 3 segundos. Entre eu abrir o site, ler meu nome na lista e sentir que eu fazia parte da seleção brasileira, a sensação durou mais ou menos 3 segundos. Quando você tem algo que deseja muito e conquista aquilo, a emoção de vitória dura segundos. O que vale é a trajetória que você leva para chegar naquele momento. Desafios do dia a dia, muito treino, estudo, dedicação e amor por aquilo que você faz. Essa felicidade a gente tem que viver todo momento. 

Atletas da Seleção Brasileira de Flag Football

A conquista de uma vaga acontece todo dia. A busca pela vitória da vida acontece todo dia. Assim repito aquela frase: “Tenha sempre como meta ter muita força e muita determinação. Sempre faça tudo com muito amor e com muita fé em Deus, porque um dia você chega lá, de alguma maneira você chega lá.”